Boa sorte

Acordada numa manhã doce, ouvindo que o dia está lindo e a vida vai mudar.

Eu acreditei. Acordei, vesti roupa colorida e batom rosa. Fui atrás da sorte numa manhã de sábado.

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Decisão

Saí para almoçar sozinha. Geralmente, gosto disso – sou antissocial, e assim posso escolher o que quero comer, onde quero ir, quanto tempo demorar e, principalmente, aproveito o tempo para ler algumas páginas de um livro de bolsa que eu esteja carregando por aí. Mas hoje, saí e percebi que não sabia para onde ir. Andei até o shopping porque parecia a coisa mais natural a fazer. Mas não pude entrar em nenhuma fila, sentar em nenhuma mesa. Só olhei, pensativa mas sem conseguir formar de fato qualquer pensamento, as caras das pessoas em seus horários de almoço. Subi algumas escadas e saí para a rua, não sem antes imaginar vagamente que seria bom fazer amizade com alguma vendedora de uma das lojas de móveis, que me deixasse sentar em um dos seus sofás por poucos minutos. Passei um quarteirão, vi homens de gravatas entrando e saindo de hotéis e restaurantes, atravessei uma avenida. Parei nas portas diversas vezes, nunca quis entrar. Quando minha hora já estava quase acabando, decidi. Continuei andando.

Calma, tá? Um de cada vez!!! Sério, gente. Vamos organizar, fazer fila. Aliás, todo mundo trouxe CPF e comprovante de residência? Sem isso não posso aceitar, lamento. Já acalmaram? É só ter paciência, vai dar pra todo mundo, não precisa ter pressa. Agora, sim, vamos lá. Vou ficar aqui quietinha, parada, não vou embora antes de acabar, não se preocupa, mas olha só: cada um bate na sua vez, ok. E ah: é um por dia. Não, não pode mais de um. Não importa se o seu é urgente, se você só tem hoje pra me humilhar, me magoar, me excluir, me machucar, me cobrar, me pedir. Se reclamar, vai todo mundo ficar sem! Humpf.

(Agradecimentos e declarações de amor são na fila ao lado. É, aquela vazia, corre lá que cê tá com sorte, funciona até mais tarde. Aguentando bem para aguentar sempre. É nosso lema.)

Ever after

Fechou os olhos começou a imaginar na mesma hora. Rosas – vermelhas? – ao lado de bancos, pessoas entrando olhando rindo, “eu sempre soube” “um pro outro”, as mais sensíveis vão chorar bem baixinho. Farfalhar de vestido arrastando, mas vai demorar um pouco ainda choveu é longe aqui, tem gente chegando. No carro, feliz sorriso redondo numa cara redonda cabelo pra cima; de pé mas não, não está cansado tudo bem, sorriso de quem cumpre deveres. Olha o vestido!, músicas dos Beatles “que bonito, né” “ah, eles têm muito bom gosto”, entra feliz de novo se convencendo até de tanta felicidade, sempre ela. Depois, um beijo, outra aliança não mais a mesma, “ah, essa é bem mais bonita, né?” “desde o começo eu sabia” “amiga querida felicidade tantos anos”, mais beijos abraços, quase todo mundo chora um pouco ri muito ele não. Escadas, carro, calor tomara que não chova de novo acho que meu cabelo não aguenta, “amor, tão feliz nós dois para sempre você não está”. Música risadas,fotos, bebidas “casamento é bom por isso!”, “amor dança essa” “olha que engraçado aquela moça e aquele moço juntos”. Acaba, carro cama fim da noite, foi bom mas ainda bem que dura um dia só. Foi bonito depois fotos na internet.
Abriu os olhos e pensou: ainda bem que aquela história não seria dela.

Conversas de botas batidas #3

L: para falar a verdade, lau, quando eu penso muito na vida, acho que escolhi a profissão errada.
me: vc acha que devia ter sido terapeuta? às vezes eu acho isso também, eu sou tão boa pros problemas dos outros…
L: eu acho, às vezes. mas só de gente muito maluca, na verdade. eu não ia aguentar coisas cotidianas… hahaha
me: ah, eu não, eu queria ser terapeuta só de gente com esses nossos probleminhas.
L: é que pode ter outro lado: às vezes a gente quer ser terapeuta pq não consegue resolver os próprios problemas
me: é, mas é por isso mesmo que eu queria ser, às vezes, porque vc pode se concentrar no problema dos outros. e o seu terapeuta toma conta do seu. e o dele dos dele. enfim, é uma cadeia muito (im)produtiva.

Eu, 2008 e o fim

O começo do fim de ano, pra mim, é marcado pelo aniversário do meu irmão. Mais do que o calor, pelas luzinhas de Natal, pelo trânsito piorado, pelas lojas cheias, pelos anúncios de férias coletivas, o que eu espero é o aniversário do meu irmão. Desde quase sempre – porque ele é mais novo que eu –, é isso que começa a marcar meu fim de ano, minha contagem regressiva, minhas compras natalinas, minhas comemorações, minhas listas e retrospectivas, enfim.

 

Hoje eu me convenci, enfim, de que o ano está acabando, assim que dei bom dia ao irmão, bem cedinho, às 7 da manhã. Um bom dia que, diferente dos outros bons dias, já anunciou logo que dia era hoje, grudando um “parabéns” logo atrás do cumprimento.

 

Preciso confessar que estou aliviada com esse comecinho de fim. (Todos os fins têm começos, sim. Os começos dos fins. São importantes, a gente é que nunca percebe.) Porque 2008 não foi bom pra mim, muitas vezes. E, mais muitas outras vezes, 2008 me prometeu um montão de coisas, e não cumpriu. 2008 tirou sarro de mim, me deu rasteira, me jogou no chão e me deixou lá, com o pé torcido e a cabeça batida. Eu e 2008 começamos muito bem, morremos de amores um pelo outro. Mas também nos detestamos. Eu quis matar 2008, viu. Hoje nossa relação está desgastada. Não sei se foi ele; pode ser que tenha sido eu. O mais provável é que tenhamos sido os dois.

 

De qualquer maneira, é bom que tudo esteja terminando. Eu vou ser mais feliz sem 2008, e ele com certeza vai ser mais feliz se eu guardar dele apenas memórias. E, com certeza, eu vou lembrar de 2008: o ano em que meu irmão fez 19 anos.

 

 

Dizer

“não querer dizer, não saber o que se quer dizer, não poder dizer o que se acredita que se quer dizer, e sempre dizer ou quase, isto é que é importante não perder de vista no calor da redação.” Beckett, em Molloy.

E estamos sempre no calor da redação.

Conversas de botas batidas #2

Mi diz:

e como andam as coisas?
Lau diz:
andam, com seus pezinhos de criancinha de um ano, que começa a andar e cai e chora, e anda de novo e começa a rir. e vc?
Mi diz:
acho que estou bem parecida, mas meus passos já são de velhos, idosos, caquentos e patéticos, que caem e num têm coragem de levantar, e quando tentam, ainda soltam pum!!!

Até amanhã

Eu? Ah, estou. Daquele jeito que a gente costumava dizer: “indo, indo”. Vou. Eu sinto saudades todos os dias, mas aceito os trabalhos e guardo os dinheiros. Eu tenho dó e raiva, mas terminei de escrever meu ensaio, revisei o livro e fui de salto alto pra reunião. Fiquei orgulhosa; eu fiz pose de gente grande e enganei todo o mundo, sabia? Eu não enganaria você. Morro de medo quase sempre, mas amanhã separei uma saia colorida e uma sandália bem baixinha, dourada, para vestir. E vou ouvindo sambas, você sabe. Eu tento morder os cotovelos de inveja do que não é meu, e depois eu mando um e-mail, leio carinhos e faço um telefonema. Eu penso demais, toda hora, em tudo o que eu não devia ou não queria, mas agora estou chorando só um pouquinho. Eu reli o Machado, e fiquei contente. Assisti o debate e me segurei em todas as minhas pedras pra não te ligar. Tenho contado menos piadas, porque nem todo mundo ri como você. Eu respiro e engulo quase todos os meus gritos. Escovo os meus dentes, penteio os cabelos, dou boa noite e durmo, com a vela acesa.

Rio…

“Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.”

Guimarães Rosa – como bem diz um amigo querido, “o mestre de todos nós.”