Eu? Ah, estou. Daquele jeito que a gente costumava dizer: “indo, indo”. Vou. Eu sinto saudades todos os dias, mas aceito os trabalhos e guardo os dinheiros. Eu tenho dó e raiva, mas terminei de escrever meu ensaio, revisei o livro e fui de salto alto pra reunião. Fiquei orgulhosa; eu fiz pose de gente grande e enganei todo o mundo, sabia? Eu não enganaria você. Morro de medo quase sempre, mas amanhã separei uma saia colorida e uma sandália bem baixinha, dourada, para vestir. E vou ouvindo sambas, você sabe. Eu tento morder os cotovelos de inveja do que não é meu, e depois eu mando um e-mail, leio carinhos e faço um telefonema. Eu penso demais, toda hora, em tudo o que eu não devia ou não queria, mas agora estou chorando só um pouquinho. Eu reli o Machado, e fiquei contente. Assisti o debate e me segurei em todas as minhas pedras pra não te ligar. Tenho contado menos piadas, porque nem todo mundo ri como você. Eu respiro e engulo quase todos os meus gritos. Escovo os meus dentes, penteio os cabelos, dou boa noite e durmo, com a vela acesa.