…felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Foi o que Tolstói escreveu no comecinho de Anna Karenina; para mim, além de ser um dos começos de livro mais marcantes que já li, é também das melhores percepções sobre o ser humano.
Não sei se você já conheceu uma família espanhola. Mais: se já viveu em uma família de mulheres espanholas. Se não, vou contar: não é nada fácil.
Tente sentar à mesa em um sábado à noite calmo, com um copo de vinho, um pedaço de pizza e um livro. Era tudo que eu estava tentando fazer, mas o telefone tocou: na linha minha mãe, muito ofendida, me mandava ligar e dizer à minha tia-avó que não íamos mais almoçar lá amanhã; alguma briga sobre o que alguém disse a outro alguém envolvendo minha tia doente e muito disse-que-me-disse.
(Aqui, um adendo: trata-se de uma família espanhola quase italiana: não comparecer ao macarrão de domingo sem uma boa razão é quase um crime.)
Cada uma certa, cada uma errada. Cada uma triste e ofendida. O vinho, a pizza e o livro ficaram de lado, esperando que eu fosse mais brasileira que elas, e remendasse a situação.
As famílias felizes e as infelizes estão separadas por uma linha quase invisível.