Hoje é dia delas, né? Minha amiga que me disse. Pensei: talvez eu não saiba porque não tenho mais vó. Minhas avós morreram há um bom tempo, e eu lembro muito delas e do quanto elas me amavam e era recíproco.
Como uma era espanhola e eu demorei muito tempo pra entender o que ela dizia, com um sotaque maluco. Essa foi quem me ensinou a contar história: contava da Espanha, do meu pai quando era criança em São Caetano, de chegar ao Brasil e conhecer meu avô, que era amigo da família dela lá na Galícia, do ônibus que ela pegou errado e precisou esperar até o ponto final, lá no centro da cidade. Ela também que me ensinou a esquentar os pés nos pés de quem dorme na cama com você.
Lembro como a outra vó era também espanhola, mas daquelas bravas. Tinha cara de brava, a cara que, dizem, eu herdei dela. Mas também sabia ser doce, e me dava banana com leite condensado enquanto assistíamos Super-market quando eu chegava da escola (alguém ainda lembra desse programa?).
Mas, depois que me disseram isso do dia da avó, pensei melhor. Eu tenho vó, sim. Porque eu tive muita sorte: cresci com três avós e, por isso, ainda tenho aqui comigo a tia Kita, vó postiça que me adotou de neta, desde sempre. Essa é a vó chorona, emotiva, ainda mais agora que vai fazer 80 anos, cada vez mais jovem. É a vó que, todos os dias, andava até minha casa (caminhada de uns bons 30 minutos) pra me dar almoço, antes de eu ir pra escola (sem ela, eu não comia). É a vó que, domingo, me prometeu meu doce preferido de sobremesa. Como fazem as avós.
