Entrei aqui para dar minha singela opinião na discussão da legalização do aborto. Mas, pra falar a verdade, fiquei com preguiça. Esse artigo, na seção Tendências e Debates da Folha de hoje traz, para mim, todos os piores argumentos de quem é contra a legalização. Porque é tão óbvio que ninguém é a favor do aborto em si que eu nem consigo começar a desconstruir as justificativas desse pessoal.
A questão, para mim, é: cada mulher que ficar grávida e não puder ter a segurança de fazer uma escolha, terá a garantia de um futuro minimamente bom e seguro para si mesma e o filho que carrega, indesejadamente, na barriga?
Quero destacar a seguinte frase do deputado Luiz Bassuma, autor do artigo lá de cima: “As mulheres mais jovens e pobres, vítimas de toda sorte de preconceito, precisam encontrar no Estado apoio amplo e irrestrito à maternidade, cuja beleza deve ser compartilhada com a paternidade responsável”. Bonito. E, depois, seus filhos serão batizados por um grupo de fadinhas cintilantes, em alguma floresta bucólica, onde o “Estado” construirá um pequeno chalézinho para a nova família viver feliz.
Não acho possível que a discussão se dê na hipótese do ideal, especialmente quando a realidade mostra um Brasil que convive com milhões de abortos clandestinos por ano.
Ou seja: a escolha já existe, já está sendo feita por essas mulheres. É apenas uma questão de tirá-la da ilegalidade. E nem quero entrar na obviedade de que você e sua filha e sua sobrinha e todas as mulheres do mundo NÃO vão passar a abortar SÓ porque é legal. Até porque, com o perdão do trocadilho, decidir fazer um aborto não é nada, nada legal.
E, já que me dispus a falar sobre, de minha parte, não sei se teria coragem de fazer um aborto, se me encontrasse na situação de considerá-lo. Mas também não sei se teria coragem de não fazê-lo. Conheço mulheres que optaram por fazer, que desistiram, que nunca cogitaram a hipótese. E, independentemente do caminho que a vida delas tomou depois disso (e cada um teve seus percalços, certamente), todas têm uma coisa em comum: puderam escolher seu futuro.
De qualquer forma, esse outro artigo, também na seção de Opinião da mesma Folha, resume bem o que eu penso.
Update: aqui, uma visão mais completa e bem articulada sobre o artigo